Esporte

St. Pauli: Muito além do futebol

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Muita gente no mundo todo conhece o Fußball-Club St. Pauli von 1910 e. V. ou simplesmente St. Pauli, clube alemão fundado no ano de 1910 na cidade portuária de Hamburgo, localizada na parte norte da Alemanha.

O clube conta com uma variedade interessante de esportes, como rugby, boliche, xadrez, beisebol, handebol … mas certamente futebol, um dos esportes mais populares no fundo, fez que “Os piratas da Liga” (como são chamados na Alemanha) ficassem conhecidos mundialmente por sua postura diferenciada, principalmente fora das quatro linhas.

O início da popularização

Desde a fundação da liga Alemã de futebol em 1962, a Bundesliga, o St. Pauli lutou pelo acesso à elite do futebol, pois no início da liga, os representantes do norte da Alemanha para a elite naquele ano eram Hamburgo, Werder Bremen e Eintracht Braunschweig, que tinham resultados mais expressivos nas temporadas anteriores e por isso foram escolhidos para compor a principal divisão do futebol da Alemanha.

Tendo sua primeira ascensão em 1977, o clube ainda não tinha um destaque no cenário nacional e mal conseguia se manter na primeira divisão. No entanto, na metade dos anos 80 uma decisão mudou totalmente a popularidade do clube. Sua sede foi transferida da zona do porto para uma região próxima com uma vida noturna mais agitada e cheia de jovens.

Torcida do St. Pauli e toda a sua diversidade na arquibancada
Torcida do St. Pauli e toda a sua diversidade na arquibancada

Foi nesta época que os torcedores adotaram a tradicional bandeira pirata como um dos símbolos da entidade. O clube passou a banir torcedores adeptos do nazismo em seu estádio, e essa decisão fez com que sua torcida ao invés de diminuir, aumentasse cada vez mais. A média de torcedores em 1981 era de cerca de 1.600 pessoas, no fim dos anos 90 essa média já era de 20.000 pessoas.

Surgimento da símbolo pirata

O principal  símbolo não oficial do St. Pauli é a bandeira preta com uma caveira e ossos cruzados. O responsável por isto é Doc Mabuse, líder de uma banda punk na época e morador antigo da cidade de Hamburgo.

A famosa bandeira dos "Piradas da Liga"
A famosa bandeira dos “Piradas da Liga”

Frequentador assíduo dos jogos do St. Pauli, Mabuse voltava para casa bêbado após um jogo e se deparou com uma barraca próxima à uma igreja,  onde estavam à venda várias bandeiras, dentre elas uma que lhe chamou à atenção, uma preta com uma caveira e ossos.

No jogo seguinte Doc Mabuse levou a bandeira ao estádio, e pouco tempo depois já era um item extremamente presente nos jogos do time de Hamburgo.

Os ideais lado a lado com o futebol

Como já citamos anteriormente, foi justamente a partir do momento em que o St. Pauli começou ter ideologias mais presentes em seu DNA, que sua popularidade foi crescendo, o primeiro passo foi não tolerar ideologias nazistas e fascistas em sua torcida, lá em 1980.

O clube também está localizado numa região de Hamburgo onde houveram grandes ocupações de moradias abandonadas, e que por anos foi palco de diversos conflitos, deixando em pauta toda a questão da moradia e especulação imobiliária.

As cores do St. Pauli vão além das tradicionais preta e marrom
As cores do St. Pauli vão além das tradicionais preta e marrom

O St. Pauli também teve em sua presidência um presidente declaradamente homossexual, Corny Littmann, que esteve a frente do clube entre 2002 e 2010. Esta é uma pauta que também está muito presente no clube, e combate ao preconceito e a homofobia. Algo que é muito difícil de acontecer de forma genuína no ambiente do futebol.

Além disso, o clube também foca bastante no que se diz respeitos aos refugiados, tema bastante sensível em todo o mundo e em especial na Europa. É possível encontrar diversos materiais de merchandising onde há a frase “REFUGEES WELCOME” (refugiados são bem vindos).

A iminente falência e os jogos contra o poderoso Bayern de Munique

O St. Pauli nunca teve um título de expressão, mas se orgulha de uma feito na temporada 2001-2002, em uma das suas poucas participações na principal divisão do futebol alemão.

O feito em questão foi uma vitória contra o poderoso Bayern de Munique que havia sido campeão mundial em 2001 e contava com o goleiro alemão Oliver Kahn.

O feito histórico rendeu muitas comemorações pelo bairro e uma camiseta com a expressão “Weltpokalsiegerbesieger” (“os vencedores dos campeões mundiais”), provavelmente vendida até hoje na loja do clube.

Feito histórico do time eternizado nas camisetas
Feito histórico do time eternizado nas camisetas

Em 2003 o clube passou por um dos momentos mais delicados de sua história centenária. Após uma administração desastrosa, o clube foi rebaixado para a terceira divisão, o que trouxe consequências terríveis e uma crise financeira que deixou o clube à beira da falência.

O cenário foi revertido graças a uma ação dos torcedores, que se mobilizaram para vender camisetas do time e arrecadar fundos para que o clube não desmoronasse. Mais de 140 mil camisetas foram vendidas e isso claro foi um combustível financeiro vital para manter o St. Pauli vivo na terceira divisão.

Além disso, nesse mesmo período o time fez um amistoso com o Bayern de Munique, onde toda a renda da bilheteria foi destinada ao St.  Pauli e assim o clube conseguiu seguir o seu caminho, se desvencilhando da falência.

Os sinos do inferno

A alma punk do St. Pauli e sua postura dentro e fora das quatro linhas é sempre destaque por todo o mundo. Outro detalhe que chama muita a atenção é a atmosfera que toma conta do estádio nos dias de jogos.

Começando pela entrada do time em campo, que tradicionalmente é acompanhada pelo clássico “Hells Bells” do AC/DC. Um baita cartão de visita, mas apesar do aparente clima hostil, a torcida faz questão de focar em apoiar o seu time e evita cânticos hostilizando os times adversários ou a torcida adversária.

Algo que é comum também na torcida do St. Pauli são as mensagens por meio de bandeiras e cartazes, sempre deixando clara a posição contra o nazismo, fascismo, homofobia, sexismo, xenofobia, entre outras causas tão importantes para a nossa sociedade.

St. Pauli entrando ao som de “Hells Bells” contra o Bayern de Munique

Crise de identidade e o legado

Com tudo o que cerca o St. Pauli foi natural o aumento da sua popularidade e com isso o clube passou a gerar uma renda cada vez maior, tornando-se uma das maiores rendas da segunda divisão alemã. Se tratando de merchandising, provavelmente é o maior case de sucesso na Bundesliga 2 (segunda divisão de futebol alemã).

Com esse sucesso financeiro, uma parte da torcida torce o nariz para tudo isso, enfatizando que apoiará o time seja qual divisão estiver e que não se importam com o rebaixamento, mas não são simpáticos à ideia do clube cada vez mais gerar renda através de merchandising, patrocínios captação de “torcedores turistas”.

Porém, outra parte defende que essa monetização é vital para sobrevivência no clube no contexto atual do futebol, que envolve cifras gigantescas. Além disso, com mais renda o clube pode se dedicar cada vez mais recursos às causas sociais e apoio a população que mais precisa de suporte, não deixando a ideologia somente no discurso e sim agindo de forma prática.

Com idas e vindas da terceira à primeira divisão alemã, o St.  Pauli deixa claro que tudo que faz parte do clube vai além do futebol, e entre conflitos internos, sofrimentos e poucas glórias, deixa uma grande marca na sociedade dentro e fora do futebol.

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